Funk
DJ Gá BHG - Venha fazer sua produção
Select

Quase 100 anos depois, projeto para criminalizar o funk repete a história do samba

Baile Funk na favela São João, no Engenho Novo - Crédito: Vincent Rosenblatt / Agência Olhares

A história não é nova. Já aconteceu com o Maxixe a até com o Samba no início do século 20. Era comum um sambista ser enquadrado na Lei da Vadiagem por simplesmente andar com um pandeiro na mão. Um dos maiores sambistas brasileiros, Bezerra da Silva, chegou a cantar em uma de suas músicas que "se não fosse o samba, quem sabe ele seria do bicho". A resposta foi para aqueles que associavam o ritmo à violência dentro das comunidades. Hoje, quase 100 anos depois da tentativa de tornar o samba crime, as palavras de Bezerra ganham eco em outra batida: o funk. 

A proposta foi enviada em janeiro por Marcelo Alonso, um webdesigner de 47 anos, morador de um bairro da zona norte de São Paulo. A ideia teve mais de 21 mil assinaturas em menos de quatro meses e agora precisa ser analisada pelo Senado Federal. Para Marcelo, o funk tem ligação direta com o aumento da criminalidade dentro das comunidades.

"E por que não criminalizar? Esse ritmo é uma falsa cultura que prega e dissemina a apologia ao consumo de drogas, sexo precoce e grupal, inclusive entre crianças e adolescentes, extermínio de policiais."

O Congresso permite que ideias de cidadãos possam virar Projeto de Lei se conseguirem 20 mil assinaturas de apoio em quatro meses. A relatoria do projeto ficou com o Senador Romário (PSB-RJ), que já se manifestou contrário ao projeto nas redes sociais. Para analisar o caso, Romário ainda vai convocar audiências públicas, que devem reunir no mesmo ambiente, funkeiros, teóricos e o autor da proposta. A polêmica está nas ruas e a CBN foi ouvir todos os lados. Quem trabalha com música, como o produtor João Marcelo Bôscoli, diz que a ideia é quase absurda. 

"Criminalizar o que? A música? O que a música fala? Estamos falando em censurar a produção artistica no Brasil em 2017, é isso? É uma piada trágica, né." 

O pesquisador Danilo Cymrot se dedicou a entender o processo de criminalização do funk no Rio de Janeiro nos anos 1990. A "descida do morro" começou a preocupar quem não tinha ideia da vida nas favelas. Para ele, ficou claro que o problema nunca foi o ritmo, mas o grupo social ao qual a batida é associada.

"O problema não é o funk, o gênero musical, a batida, mas o grupo social ao qual esse gênero é associado.  Se esses jovens, negros, pobres estivessem ouvindo outro gênero musical e se identificando com tal gênero e colocando nele letras sobre polícia, tráfico, esse outro ritmo musical estaria sendo criminalizado e não o funk."
 
Um dos funks mais conhecidos dos anos 1990 é o Rap das Armas. A música lista o nome de armas conhecidas pelos jovens da favela da Rocinha, onde nasceram os MC's Júnior e Leonardo. A letra causou estranheza, quando a música começou a chegar aos ouvidos dos jovens e classe médis da zona Sul do Rio de Janeiro. A polêmica foi tão grande, que os dois precisaram prestar depoimento em 1995. Aí, o funk virou caso de polícia.  

"A falta de política pública empurrou o funk somente pra dentro da favela. E dentro da favela se criou a opinião, depois da morte do Tim Lopes, que baile funk é reunião de traficantes", avalia Leonardo.
 
Quem apoia a ideia de tornar o funk crime cita algumas justificativas. A principal delas é o conteúdo das letras, que seriam uma apologia à violência. Os versos pesados, normalmente, estão na batida dos "proibidões", como são chamados os funks mais explícitos. Eles são contestados até por artistas do gênero. Entre eles está MC Sapão, um dos nomes mais conhecidos do funk carioca atualmente, que viveu essa realidade no Complexo do Alemão.
 
"Antes o meu herói era o traficante, era o bandidão, que via o pai bêbado espancando a mãe e vinha defender a mãe, dando um corretivo no pai, fazendo do tribunal do crime o tribunal mais próximo do indivíduo, do adolescente, da criança. Isso é bonito de se dizer? Não! Não é o certo! É uma visão totalmente distorcida do que se deve ser."
 
Os probidões são a maior atração nos fluxos, como são chamadas as aglomerações de jovens para ouvir funk na ruas das periferias. A maior parte dos MCs surge delas, como Koringa, que diz que a relidade está diretamente ligada ao conteúdo das letras. 

"Se fosse proporcionado a essas pessoas outra realidade, com certeza, elas contariam outra realidade. O Rap da Felicidade "eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci". Como o Rap do Silva "ele era funkeiro, mas era pai de família". Era, pq ele morreu. E até hoje, todos os dias se vão vários Silvas, Oliveiras e por aí vai."


Autores: Évelin Argenta, Juliana Causin, Leopoldo Rosa e Vitor Gilard
Fonte: CBN - Cultura

3 meses atrás   Tags : funk criminalizar

Comentários

Capa Funk Music
Carregando ...